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ENTREVISTA A BILL GATES

O homem mais rico do planeta entrevistado na RTP1

 

Bill Gates, o homem mais rico do planeta (com uma fortuna estimada em 42 mil milhões de Euros) e ao mesmo tempo o maior filantropo à escala mundial (com uma Fundação, que criou juntamente com a sua mulher, para fins humanitários com uma dotação de 17 mil milhões de euros), esteve em Portugal no âmbito da conferência europeia da Microsoft, empresa que criou, e foi à Grande Entrevista da RTP.

 

Foi na quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2006, pelas 21:00 que a RTP1 transmitiu a Grande Entrevista. Com 31 minutos de duração, esta entrevista foi feita pela jornalista Judite de Sousa.

 

A ENTREVISTA

 

Judite de Sousa: Boa noite, Mr. Bill Gates. Foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo seu trabalho e o da sua fundação em causas humanitárias. Que sente com este reconhecimento? O que significa para si?

 

Bill Gates: É uma grande honra receber a condecoração. Estou muito empenhado no trabalho que a minha fundação faz a favor de pessoas que ainda sofrem de doenças que os países mais ricos não têm. Estou muito empenhado em continuar isso. Espero que esteja no espirito deste prémio, que é o de ajudar pessoas por todo o mundo.

 

JS: Primeiro, vamos falar do seu trabalho. Gostaria de lhe perguntar se a sua paixão por computadores continua como à 30 anos, quando fundou a Microsoft?

 

BG: Eu diria que esta é uma época ainda mais emocionante em termos da forma como os computadores podem mudar o mundo. Fizemos muitos progressos, ultimamente, e estamos a investir muito para continuar a fazê-los, tornando o computador muito mais natural, muito mais automático. E o impacto, tanto na economia como na vida em casa, será tão grande nos próximos 10 anos como tudo o que fizemos até hoje.

 

JS: Os computadores vão mudar ainda mais a nossa vida? O que é que acha que ainda vai acontecer?

 

BG: Os computadores são ferramentas para nós usarmos como quisermos. Permite-nos ser mais eficazes, mais criativos, permite-nos comunicar de novas formas... Cria flexibilidade. Permite-nos tirar fotografias dos filhos, partilhá-las com os avós voltar atrás e recordar momentos felizes... Permite-nos aprender coisas sobre assuntos que nos interessam. Todas estas coisas vão melhorar bastante, e podemos ter o computador ligado à internet acessível a muitas mais pessoas. Por isso, sim, está a mudar a vida, mas só na medida em que as pessoas o adaptam aos seus desejos.

 

JS: Mas qual vai ser o seu próximo passo?

 

BG: Todos os anos, aquilo a que chamamos estilo de vida digital, estilo de trabalho digital afecta mais pessoas. Principalmente os mais jovens, adoptam isto no trabalho, adoptam estas ideias. Por isso, as expectativas de usar as coisas de novas maneiras são cada vez maiores. Algumas das mudanças, como passar do papel para o computador, ou reconhecimento de voz, ainda não aconteceram. Mas estou confiante de que acontecerão. Por isso, as pessoas ainda vão ficar surpreendidas com os progressos.

 

JS: Mas, como sabe, muita gente fica viciada em computadores. Que conselho lhes pode dar?

 

BG: Quando apareceram os livros houve quem ficasse preocupado que as pessoas os lessem demais, falavam em ”ratos de bibliotecas”. A chave é sempre conseguir um equilíbrio. Usar o computador para interagir é provavelmente mais estimulante do que ficar passivamente a ver televisão. Mas os pais podem ver se os filhos estão a fazer os trabalhos de casa, a aprender coisas novas. Isso é óptimo. Se estão só a jogar, provavelmente terão de impor algum limite, para que também façam outras coisas.

 

JS: Gosta de ler livros?

 

BG: Sem Duvida. Sou um leitor ávido.

 

JS: Posso saber o que está a ler agora?

 

BG: Estou a ler muita coisa sobre energia. É uma questão importante. “twilight in Desert”, “Bottomless Well”… Leio muita coisa sobre saúde, sobre doenças.  Livros que não são muito populares, mas que falam dos progressos que é preciso fazer nessa área.

 

JS: Disse à TIME que gostava de falar na maneira como as fantasias infantis se tornam realidade. Naquele tempo, quais eram as suas fantasias?

 

BG: Um dos sonhos que eu tinha era que o computador viesse a ser barato, e ao alcance das pessoas, não apenas das grandes empresas. Sonhava como esse computador seria sensacional. Foi a isso que dediquei o trabalho da minha vida, a concretizar essas ideias. Não é muito vulgar poder pegar num sonho tão impossível, e no entanto vê-lo concretizado.

 

JS: Em Portugal, temos um problema grande com a matemática. Como é que as pessoas aprendem a gostar de matemática?

 

BG: Eu gostei da matemática naturalmente. Mas, para muitas pessoas, temos de tornar mais obvio o facto de a matemática ser uma grande ferramenta. Por exemplo, colocá-la no contexto da resolução de um problema interessante sobre construção, ou gestão... Certas pessoas sabem que vão precisar disso para fazer um bom trabalho. É importante para qualquer estudante ter bons conhecimentos de matemática. Mas os Estados Unidos, se comparados com os países asiáticos, também não tentam bons resultados como deviam.

 

JS: Tem estado estes dias em Portugal, e pergunto-lhe como é que um país como Portugal, com problemas de competitividade, dá um grande salto?

 

BG: O factor mais importante para a competitividade é o investimento na educação. Garantir que todos os estudantes usam computadores e têm essas capacidades. Porque não só empregos na informática, mas todos os empregos exigem esse tipo de habilitações. Também a ideia da formação. Alguém que trabalhou em têxteis... A Microsoft tem alguns centros aqui em Portugal que lhe permitirá obter informação em informática. Cremos que esses programas podem ajudar a modernizar a força de trabalho e antecipar o facto de que os empregos vão mudar. Todos os países tem de entrar no mundo novo.

 

JS: Vamos falar dos desempregados do sector têxtil em Portugal, que serão treinados pela Microsoft em tecnologias da informação. Que Poderão eles fazer?

 

BG: O objectivo é dar-lhes habilitações para fazerem outros tipos de trabalhos. Familiarizá-los com spred sheetse processamento de texto,  e os conceitos que isso envolve. Vai levá-los a novas oportunidades. Estamos a trabalhar em parceria com o Governo nisso, e creio que é assim que devemos medir o nosso êxito.

 

JS: Acredita que poderão ter sucesso no futuro, se obtiverem conhecimentos de tecnologias da informação?

 

BG: Creio que é um elemento-chave. O sucesso de todo o programa será determinado pela capacidade de encontrarem novos empregos.

 

JS: Em que consistem os outros acordos que assinou com o Governo?

 

BG: Temos um vasto leque de iniciativas em Portugal. O interesse em apostar nas tecnologias de informação como ferramenta para tornar as empresas e o Estado mais eficientes. Existe um forte compromisso político nesse objectivo. Um dos mais interessantes é o Centro de Língua Portuguesa, em que os peritos vão proporcionar reconhecimento de voz, síntese de voz, um trabalho especial para garantir que o português, que, claro, é falado em muitos países, tenha todas essas capacidades avançadas, tal com o inglês. Essa é uma colaboração muito importante para nós.

 

JS: Fala muitas vezes em inovação. Trata-se de um conceito alargado. Como definiria inovação?

 

BG: Tudo tem de depender do olhar do consumidor. “Será que facilita a minha vida? Permite-me interagir de novas maneiras?” Se se trata de um produto novo, uma novidade, pode conquistar rapidamente a aceitação do mercado. Portanto, a inovação tem haver com concepção de produtos.

 

JS: Já falou em computadores. Mas sabemos que os computadores usados para trabalhar também podem ser usados para preparar, por exemplo, um ataque terrorista como o do 11 de Setembro. Como vê esta ameaça?

 

BG: Qualquer instrumento na sociedade, quer seja o telefone o carro, ou, nesse caso, o avião, pode ser usado para o bem ou pode ser usado para fins criminosos. Temos é que nos assegurar de que a polícia compreende todas estas novas tecnologias, para que a sua capacidade de apanhar criminosos se mantenha forte nesta nova era, e ainda mais forte se usarem estes meios de forma correcta. Mais uma vez, é uma área de cooperação entre nós e o Governo, garantir que o treino das forças de segurança se mantém actualizado no domínio do software.

 

JS: É uma ameaça real, hoje em dia...

 

BG: Não, eu diria que, no passado, os criminosos teriam feito o mesmo por outros meios. Não é que haja mais pessoas más, temos é que compreender que eles vão usar as mesmas ferramentas que as pessoas boas usam.

 

JS: Acaba de chegar de Davos. Como deverão a Europa e EUA reagir ao crescente poder de países como a Índia e a China?

 

BG: Acho que devemos reagir com entusiasmo à ideia de que esses países estão a educar melhor a população, estão a inventar novos produtos e fornecer serviços a  baixo custo. É um pouco um desafio para  o resto do mundo renovar os seus investimentos e o seu sistema educativo, nomeadamente na matemática e nas ciências, domínios que definirão os grandes produtos inovadores. Mas é bom estarem a sair da pobreza da iniquidade do que tem sido a vida nesses países, dramaticamente pior do que nos países mais ricos.

 

JS: Então não está preocupado como poder crescente destes países?

 

BG: Não. Se pudéssemos simplesmente dizer que, de um dia para o outro, toda a gente na Índia era tão rica como em  Portugal, comprariam mais produtos, fabricariam produtos melhores... Quando as pessoas tem educação, contribuem para inovação mundial. Não podemos fazer isso acontecer de um dia para o outro, mas o facto de as coisas estarem a evoluir nessa direcção é bom para o bem estar do mundo. È o mesmo planeta, e queremos que todos prosperem. E se uma economia cresce, não é a custa de outra. Isto não é uma guerra, trata-se apenas de criar bons produtos.

 

JS: Em Portugal, muitas empresas estão a fechar, como sabe, e a mudar-se para esses países. Portanto, é um  risco para nós. Não acha?

 

BG: Não creio que é tanto as empresas a fechar. Há casos em que uma empresa usa talentos aqui e talentos lá para se manter competitiva em termos mundiais. Á medida que o mundo vai ficando melhor,  há sempre a questão de saber se devemos fechar-nos e permitir menos comercio, ou abrirmo-nos e beneficiar com isso. E, sem margem para duvidas, os países que foram mais abertos e renovaram a formação  foram os que tiveram mais êxito.

 

JS: Mas o objectivo, hoje em dia, é criar empregos.

 

BG: Podemos acabar com as trocas internacionais. Mas aí travamos o processo de renovação, e deixamos de ter empresas a nível mundial. É uma opção que os eleitores têm, modernizarem-se ou não.

 

JS: Mr Gates, a tecnologia não conseguiu reduzir a diferença entre países ricos e países pobres. Acha que essa diferença vai aumentar?

 

BG: Se vir as estatísticas do bem-estar, o mundo está a fazer um trabalho melhor, não tão bom como devia em termos de levar os progressos a toda a gente. Se vir os computadores, antigamente só existiam nos países ricos. Mas, agora, são usados em escolas de todo o mundo. E a Microsoft está muito envolvida em doar software e ajudar nisso. A minha fundação é a maior doadora na tentativa de tronar os progressos médicos acessíveis em todo o mundo. Mas tem havido, em cada década reduções na desigualdade. Veja como vivem os chineses hoje, em comparação com há vinte anos. O caminho do incremento do comércio mundial fez subir os níveis de rendimento. Os níveis de ajuda devem subir para ajudar acelerar esse processo. Mas a tendência vai na direcção certa.

 

JS: Como teve a ideia de criar uma fundação para ajudar os habitantes dos países pobres?

 

BG: Fiquei muito surpreendido ao aperceber-me de que não se dá muito valor ás vidas nos países em desenvolvimento. Uma vida pode ser salva por $100 de medicamentos. E quase não se faz investigação em novos medicamentos para curar doenças que só existem em países pobres. Assim que me apercebi disso, decidi que essa era melhor maneira de devolver à sociedade todo o dinheiro que tenho, pois era a que teria um impacto mais positivo.

 

JS: A sua fundação é gerida pelo seu pai...

 

BG: Sim, o meu pai e Patti Stonrcipher, que trabalhava na Microsoft dirigem a fundação no dia-a-dia.

 

JS: Acha que deve tornar uma parte da sua fortuna acessível aos pobres?

 

BG: Foi uma opção minha. Não é uma questão de obrigação. A esmagadora maioria da minha fortuna irá para essa causa. Creio que é atitude certa a tomar, e encorajo outros  a fazer o mesmo.

 

JS: Quais são as suas grandes preocupações em termos de saúde global?

 

BG: A maior iniquidade do mundo é o facto de estas vidas se perderem. Por pouco dinheiro, podemos salvar a vida de crianças. Se o fizermos, desce o crescimento demográfico, a “literacia” (10:49) sobe... Temos é de iniciar este ciclo positivo. E são as condições de saúde que impedem que isso aconteça. E temos imensos avanços tecnológicos, só que não os aplicamos para beneficio destas pessoas.

 

JS: O que está a fazer em Moçambique através da sua fundação?

 

BG: Moçambique, tal como muitos países Africanos, tem uma grande taxa de doenças. A epidemia de SIDA, a malária, a tuberculose, doenças respiratórias, diarreia... Todas elas são muito prevalecentes em Moçambique. Temos lá vários centros onde estamos a testar vários remédios para a malária e para a tuberculose. Financiamos a investigação e o tratamento. O novo fundo para vacinação que a nossa fundação e os governos apoiam acrescentou novas vacinas às que as crianças Moçambicanas recebem.

 

JS: Como é que escolheu Moçambique?

 

BG: A fundação está a trabalhar em todos os países onde estas doenças são muito comuns. Moçambique foi o primeiro país para as novas vacinações porque o Governo tem um interesse pela saúde mundial, era um sítio para começar. Sofrera  fortes intempéries que trouxeram muitas dificuldades. E estavam muitos interessados em lidar com as doenças. Além disso, encontrámos no interior de Moçambique médicos com muito talento, e decidimos apoiar a sua actividade.

 

JS: Quando vai a esses países, o que é que as pessoas lhe dizem?

 

BG: Quando vou a esses países, as pessoas não sabem quem eu sou. Vou lá só para ver como as coisas estão a funcionar, ou não, e para garantir que sejam aplicadas as pessoas mais capazes e os melhores recursos para ter um maior impacto.

 

JS: Mr Gates Sente que é mais poderoso e influente do que presidentes e Governos?

 

BG: Não.

 

JS: Não?

 

BG: Não.

 

JS: Que significa para si esta ideia de poder?

 

BG: Os políticos tomam decisões par o país inteiro. O que quer dizer que temos de os escolher com muito cuidado. As decisões que eu tomo sobre design de software, ou sobre o que a fundação faz, não são decisões para outras pessoas. É muito diferente. Nos negócios, é a concorrência. Quem tem o produto melhor passa a frente. Dependemos totalmente de compreender as necessidades do cliente, e sempre a introduzir melhorias. Portanto, não há decisões arbitrárias,  como pode haver no mundo político.

 

JS: Mas, hoje em dia, a concorrência não é só entre empresas mas também entre países. Concorda com esta ideia?

 

BG: Nem por isso. Qualquer país pode aprender com outros países, mas se um pais inventa um novo medicamento que cura uma doença, isso não é uma perda para o outro país, é um beneficio para todo o mundo.

 

JS: Disse que o conhecimento se tornou um adjectivo. Que quer dizer com isto?

 

BG: A capacidade de partilhar ideias, de colaborar mais eficazmente, foi dramaticamente incrementada pela combinação do software com a Internet. Esperamos que os estados sejam mais eficientes, com menos papelada, que a concepção de produtos se faça de forma mais eficaz... Em todos os sectores, esperamos que estas ferramentas do conhecimento sejam usadas. E, cada ano que passa a Microsoft tem feito grandes progressos nessas ferramentas, garantindo que vão para o mercado e têm um grande efeito.

 

JS: Como responde aos que o acusam de dominar o mundo das tecnologias da informação através da sua empresa?

 

BG: A Microsoft tem muitos concorrentes. É sempre um campo em que há novos desafios. Nos telemóveis, há muitas empresas boas a trabalhar nesse sector. Há grandes companhias, há a IBM, há empresas que fazem bases de dados... Trouxemos uma abordagem de alto volume e baixo-preço  às tecnologias da informação, que foi bastante revolucionária e que permitiu sucesso dos nossos parceiros. Mas temos de ganhar a nossa posição todos os anos, tornando os nossos produtos obsoletos e fazendo melhor.

 

JS: Mas como vê os seus principais concorrentes?

 

BG: São muito activos. Os concorrentes que não eram muito bons já desapareceram há muito. Hoje, há empresas inteligentes cheias de energia. A concorrência é muito saudável.

 

JS: Como vê, por exemplo, o êxito de outras empresas como a Google?

 

BG: A Google é hoje, sem dúvida, a estrela da indústria devido ao que fizeram em termos de busca. A Microsoft vai fazer-lhe mais concorrência do que se espera, mas é uma empresa inovadora, trouxe coisas novas. É um óptimo exemplo de como o nosso sector muda tão depressa.

 

JS: Mas respeita-os, claro...

 

BG: Claro.

 

JS: Sente que é mais admirado ou invejado?

 

BG: Não sei. As pessoas que me conhecem, com quem eu me dou, conhecem-me não apenas numa única dimensão. As pessoas que não me conhecem provavelmente não sentem uma coisa nem outra.

 

JS: Qual é a devisa da sua vida?

 

BG: Não tenho uma devisa. Acredito sem dúvida nos avanços, estou optimista quanto ao progresso e esforço-me muito para garantir que ele beneficie o máximo de pessoas.

 

JS: E como lida com a fama?

 

BG: Passo o maior tempo com engenheiros da Microsoft, ou com a família... Em viagens a países em desenvolvimento, onde não sabem quem eu sou. Não é um grande problema. Deu-me a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, de trabalhar com Nelson Mandela, Bono, grandes cientistas... Gosto da oportunidade de trabalhar com as pessoas incríveis.

 

JS: Mas não gosta de ser visto como uma celebridade...

 

BG: Quando se fala em celebridade, penso mais em estrelas de cinema do que num engenheiro como eu.

 

JS: Então não gosta de ser visto como uma celebridade...

 

BG: O meu nome é muito conhecido, reconheço isso. Mas não é um objectivo. É mais um resultado dos produtos em que estive envolvido.

 

JS: Ainda tem sonhos impossíveis de concretizar?

 

BG: O computador pessoal com que sonhei quando era novo, ainda não o temos. Não é tão potente, ou tão simples, ou seguro como eu queria. Portanto, há muitas décadas de trabalho pela frente para conseguirmos atingir essa ideia.

 

JS: Que recordações tem do passado, em que passavas noites á frente do computador com o seu amigo Paul Allen?

 

BG: Foram tempos óptimos. É muito bom estarmos directamente envolvidos. Não tínhamos o impacto que temos hoje, mas havia uma certa simplicidade no facto de ninguém acreditar em nós, embora soubéssemos que estávamos a trabalhar em algo importante. Foi muito emocionante. Trabalhávamos dia e noite, contratámos gente muito inteligente... Tínhamos um sonho que viria a revolucionar os computadores. O espantoso é que se concretizou.

 

JS: Continuam amigos?

 

BG: Claro. É um amigo muito chegado. Aliás, no Domingo vamos os dois a um jogo de futebol americano, o Superbowl, porque a equipa dele é uma das finalistas.

 

JS: Gosta de jogar bridge?

 

BG: Os jogos de cartas? Gosto, sim.

 

JS: Esta é uma pergunta que toda a gente em Portugal faz. Qual foi o segredo do seu sucesso?

 

BG: Não creio que haja uma resposta simples. É um facto que tive imensa sorte em conhecer pessoas como Paul Allen e em estar presente no início da indústria dos computadores, e em vê-la de uma maneira diferente de todos os outros. Há um certo talento, trabalho duro, que também entra na equação. Ver onde estávamos a cometer erros, renovar a nossa excelência. Muitas vezes, as pessoas julgavam que íamos falhar, mas, até agora, conseguimos sempre ter sucesso. É uma mistura de todas estas coisas.

 

JS: Quantas horas por dia passa à frente do computador?

 

BG: Os meus dias variam muito. O que eu faço agora é, quando vou a reuniões, levo o meu computador portátil para poder tomar apontamentos. Tenho um em que posso usar uma caneta que cria tinta. Portanto, agora que o tenho nas reuniões, são muitas, muitas horas. Passo duas a três horas por dia, sozinho, a ler e-mail, a enviar e-mail, e a procurar informações. Mas também uso o computador para reuniões, para aceder aos últimos dados, tirar apontamentos e partilhá-los com outros.

 

JS: Portanto, os computadores e a fundação são a sua vida...

 

BG: É o meu trabalho. Tenho a família, que é muito importante. Tenho alguns passatempos, mas minha energia profissional vai para a Microsoft e para a fundação.

 

JS: Consegue imaginar a sua vida sem computadores?

 

BG: Os computadores são uma ferramenta em tudo o que eu faço. Mas são apenas isso, ajudam-me a fazer as coisas.

 

JS: Trabalha todos os dias?

 

BG: Não. Às vezes, tiro dias. Quando estou de férias, leio livros sobre tuberculose ou SIDA. Por isso, pode dizer-se que estou sempre a tentar aprender. Mas tenho imensos dias de férias divertidos com os meus filhos.

 

JS: Mas desde 2000 que não é o director executivo da Microsoft.

 

BG: Exacto. Steve Balmer é director executivo da Microsoft e eu sou o presidente. Continua a ser um emprego a tempo inteiro para mim. Mas posso concentrar-me na estratégia de produto, ele tem a responsabilidade geral sobre todas as grandes decisões.

 

JS: Ele é seu amigo da Universidade de Harvard...

 

BG: Exacto. Conhecemo-nos quando éramos estudantes.  Somos grandes amigos.

 

JS: Para terminar, Mr. Gates, consegue ter uma vida normal? Passa a vida a viajar pelo mundo, em reuniões, conferências...

 

BG: Há muitas coisas na minha vida que são perfeitamente normais. Sou bom a lavar pratos, a cozinhar. Não corto a relva, não faço certas coisas. Quando estou com os miúdos, em família, é muito normal. Tenho muita sorte em ter... Passo todo o tempo livre que tenho com os meus filhos.

 

JS: Tem três filhos.

 

BG: Exacto.

 

JS: É a terceira vez que vem a Portugal,  a Lisboa.

 

BG: Sim, se não contar quando cá vim como turista.

 

JS: Então não é a terceira vez que vem a Lisboa?

 

BG: Não. Quando era mais novo, vim várias vezes. Mas isso foi antes da Microsoft.

 

JS: Gosta de viajar pelo mundo?

 

BG: Sim, claro.

 

JS: E tem tempo para contactar com as pessoas, visitar os lugares, ou não é possível?

 

BG: Quando estou de férias, claro. Tenho um bom amigo, Rodrigo Costa,  que voltou para Portugal depois de trabalhar na sede da Microsoft. Vamos ter tempo para conversar hoje. É óptimo conhecer pessoas como ele.

 

JS: Mr. Gates, obrigada por me ter dado esta entrevista.

 
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