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Judite de
Sousa:
Boa noite, Mr. Bill Gates. Foi
condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo seu trabalho e o da
sua fundação em causas humanitárias. Que sente com este reconhecimento?
O que significa para si?
Bill
Gates:
É uma grande honra receber a
condecoração. Estou muito empenhado no trabalho que a minha fundação faz
a favor de pessoas que ainda sofrem de doenças que os países mais ricos
não têm. Estou muito empenhado em continuar isso. Espero que esteja no
espirito deste prémio, que é o de ajudar pessoas por todo o mundo.
JS:
Primeiro, vamos falar do seu trabalho. Gostaria de lhe perguntar se a
sua paixão por computadores continua como à 30 anos, quando fundou a
Microsoft?
BG: Eu diria
que esta é uma época ainda mais emocionante em termos da forma como os
computadores podem mudar o mundo. Fizemos muitos progressos,
ultimamente, e estamos a investir muito para continuar a fazê-los,
tornando o computador muito mais natural, muito mais automático. E o
impacto, tanto na economia como na vida em casa, será tão grande nos
próximos 10 anos como tudo o que fizemos até hoje.
JS: Os
computadores vão mudar ainda mais a nossa vida? O que é que acha que
ainda vai acontecer?
BG: Os
computadores são ferramentas para nós usarmos como quisermos.
Permite-nos ser mais eficazes, mais criativos, permite-nos comunicar de
novas formas... Cria flexibilidade. Permite-nos tirar fotografias dos
filhos, partilhá-las com os avós voltar atrás e recordar momentos
felizes... Permite-nos aprender coisas sobre assuntos que nos
interessam. Todas estas coisas vão melhorar bastante, e podemos ter o
computador ligado à internet acessível a muitas mais pessoas. Por isso,
sim, está a mudar a vida, mas só na medida em que as pessoas o adaptam
aos seus desejos.
JS: Mas qual
vai ser o seu próximo passo?
BG: Todos os
anos, aquilo a que chamamos estilo de vida digital, estilo de trabalho
digital afecta mais pessoas. Principalmente os mais jovens, adoptam isto
no trabalho, adoptam estas ideias. Por isso, as expectativas de usar as
coisas de novas maneiras são cada vez maiores. Algumas das mudanças,
como passar do papel para o computador, ou reconhecimento de voz, ainda
não aconteceram. Mas estou confiante de que acontecerão. Por isso, as
pessoas ainda vão ficar surpreendidas com os progressos.
JS: Mas,
como sabe, muita gente fica viciada em computadores. Que conselho lhes
pode dar?
BG: Quando
apareceram os livros houve quem ficasse preocupado que as pessoas os
lessem demais, falavam em ”ratos de bibliotecas”. A chave é sempre
conseguir um equilíbrio. Usar o computador para interagir é
provavelmente mais estimulante do que ficar passivamente a ver
televisão. Mas os pais podem ver se os filhos estão a fazer os trabalhos
de casa, a aprender coisas novas. Isso é óptimo. Se estão só a jogar,
provavelmente terão de impor algum limite, para que também façam outras
coisas.
JS: Gosta de
ler livros?
BG: Sem
Duvida. Sou um leitor ávido.
JS: Posso
saber o que está a ler agora?
BG: Estou a
ler muita coisa sobre energia. É uma questão
importante. “twilight in Desert”, “Bottomless Well”…
Leio muita coisa sobre saúde, sobre doenças. Livros que
não são muito populares, mas que falam dos progressos que é preciso
fazer nessa área.
JS: Disse à
TIME que gostava de falar na maneira como as fantasias infantis se
tornam realidade. Naquele tempo, quais eram as suas fantasias?
BG: Um dos
sonhos que eu tinha era que o computador viesse a ser barato, e ao
alcance das pessoas, não apenas das grandes empresas. Sonhava como esse
computador seria sensacional. Foi a isso que dediquei o trabalho da
minha vida, a concretizar essas ideias. Não é muito vulgar poder pegar
num sonho tão impossível, e no entanto vê-lo concretizado.
JS: Em
Portugal, temos um problema grande com a matemática. Como é que as
pessoas aprendem a gostar de matemática?
BG: Eu
gostei da matemática naturalmente. Mas, para muitas pessoas, temos de
tornar mais obvio o facto de a matemática ser uma grande ferramenta. Por
exemplo, colocá-la no contexto da resolução de um problema interessante
sobre construção, ou gestão... Certas pessoas sabem que vão precisar
disso para fazer um bom trabalho. É importante para qualquer estudante
ter bons conhecimentos de matemática. Mas os Estados Unidos, se
comparados com os países asiáticos, também não tentam bons resultados
como deviam.
JS: Tem
estado estes dias em Portugal, e pergunto-lhe como é que um país como
Portugal, com problemas de competitividade, dá um grande salto?
BG: O factor
mais importante para a competitividade é o investimento na educação.
Garantir que todos os estudantes usam computadores e têm essas
capacidades. Porque não só empregos na informática, mas todos os
empregos exigem esse tipo de habilitações. Também a ideia da formação.
Alguém que trabalhou em têxteis... A Microsoft tem alguns centros aqui
em Portugal que lhe permitirá obter informação em informática. Cremos
que esses programas podem ajudar a modernizar a força de trabalho e
antecipar o facto de que os empregos vão mudar. Todos os países tem de
entrar no mundo novo.
JS: Vamos
falar dos desempregados do sector têxtil em Portugal, que serão
treinados pela Microsoft em tecnologias da informação. Que Poderão eles
fazer?
BG: O
objectivo é dar-lhes habilitações para fazerem outros tipos de
trabalhos. Familiarizá-los com spred sheetse processamento de texto, e
os conceitos que isso envolve. Vai levá-los a novas oportunidades.
Estamos a trabalhar em parceria com o Governo nisso, e creio que é assim
que devemos medir o nosso êxito.
JS: Acredita
que poderão ter sucesso no futuro, se obtiverem conhecimentos de
tecnologias da informação?
BG: Creio
que é um elemento-chave. O sucesso de todo o programa será determinado
pela capacidade de encontrarem novos empregos.
JS: Em que
consistem os outros acordos que assinou com o Governo?
BG: Temos um
vasto leque de iniciativas em Portugal. O interesse em apostar nas
tecnologias de informação como ferramenta para tornar as empresas e o
Estado mais eficientes. Existe um forte compromisso político nesse
objectivo. Um dos mais interessantes é o Centro de Língua Portuguesa, em
que os peritos vão proporcionar reconhecimento de voz, síntese de voz,
um trabalho especial para garantir que o português, que, claro, é falado
em muitos países, tenha todas essas capacidades avançadas, tal com o
inglês. Essa é uma colaboração muito importante para nós.
JS: Fala
muitas vezes em inovação. Trata-se de um conceito alargado. Como
definiria inovação?
BG: Tudo tem
de depender do olhar do consumidor. “Será que facilita a minha vida?
Permite-me interagir de novas maneiras?” Se se trata de um produto novo,
uma novidade, pode conquistar rapidamente a aceitação do mercado.
Portanto, a inovação tem haver com concepção de produtos.
JS: Já falou
em computadores. Mas sabemos que os computadores usados para trabalhar
também podem ser usados para preparar, por exemplo, um ataque terrorista
como o do 11 de Setembro. Como vê esta ameaça?
BG: Qualquer
instrumento na sociedade, quer seja o telefone o carro, ou, nesse caso,
o avião, pode ser usado para o bem ou pode ser usado para fins
criminosos. Temos é que nos assegurar de que a polícia compreende todas
estas novas tecnologias, para que a sua capacidade de apanhar criminosos
se mantenha forte nesta nova era, e ainda mais forte se usarem estes
meios de forma correcta. Mais uma vez, é uma área de cooperação entre
nós e o Governo, garantir que o treino das forças de segurança se mantém
actualizado no domínio do software.
JS: É uma
ameaça real, hoje em dia...
BG: Não, eu
diria que, no passado, os criminosos teriam feito o mesmo por outros
meios. Não é que haja mais pessoas más, temos é que compreender que eles
vão usar as mesmas ferramentas que as pessoas boas usam.
JS: Acaba de
chegar de Davos. Como deverão a Europa e EUA reagir ao crescente poder
de países como a Índia e a China?
BG: Acho que
devemos reagir com entusiasmo à ideia de que esses países estão a educar
melhor a população, estão a inventar novos produtos e fornecer serviços
a baixo custo. É um pouco um desafio para o resto do mundo renovar os
seus investimentos e o seu sistema educativo, nomeadamente na matemática
e nas ciências, domínios que definirão os grandes produtos inovadores.
Mas é bom estarem a sair da pobreza da iniquidade do que tem sido a vida
nesses países, dramaticamente pior do que nos países mais ricos.
JS: Então
não está preocupado como poder crescente destes países?
BG: Não. Se
pudéssemos simplesmente dizer que, de um dia para o outro, toda a gente
na Índia era tão rica como em Portugal, comprariam mais produtos,
fabricariam produtos melhores... Quando as pessoas tem educação,
contribuem para inovação mundial. Não podemos fazer isso acontecer de um
dia para o outro, mas o facto de as coisas estarem a evoluir nessa
direcção é bom para o bem estar do mundo. È o mesmo planeta, e queremos
que todos prosperem. E se uma economia cresce, não é a custa de outra.
Isto não é uma guerra, trata-se apenas de criar bons produtos.
JS: Em
Portugal, muitas empresas estão a fechar, como sabe, e a mudar-se para
esses países. Portanto, é um risco para nós. Não acha?
BG: Não
creio que é tanto as empresas a fechar. Há casos em que uma empresa usa
talentos aqui e talentos lá para se manter competitiva em termos
mundiais. Á medida que o mundo vai ficando melhor, há sempre a questão
de saber se devemos fechar-nos e permitir menos comercio, ou abrirmo-nos
e beneficiar com isso. E, sem margem para duvidas, os países que foram
mais abertos e renovaram a formação foram os que tiveram mais êxito.
JS: Mas o
objectivo, hoje em dia, é criar empregos.
BG: Podemos
acabar com as trocas internacionais. Mas aí travamos o processo de
renovação, e deixamos de ter empresas a nível mundial. É uma opção que
os eleitores têm, modernizarem-se ou não.
JS: Mr
Gates, a tecnologia não conseguiu reduzir a diferença entre países ricos
e países pobres. Acha que essa diferença vai aumentar?
BG: Se vir
as estatísticas do bem-estar, o mundo está a fazer um trabalho melhor,
não tão bom como devia em termos de levar os progressos a toda a gente.
Se vir os computadores, antigamente só existiam nos países ricos. Mas,
agora, são usados em escolas de todo o mundo. E a Microsoft está muito
envolvida em doar software e ajudar nisso. A minha fundação é a maior
doadora na tentativa de tronar os progressos médicos acessíveis em todo
o mundo. Mas tem havido, em cada década reduções na desigualdade. Veja
como vivem os chineses hoje, em comparação com há vinte anos. O caminho
do incremento do comércio mundial fez subir os níveis de rendimento. Os
níveis de ajuda devem subir para ajudar acelerar esse processo. Mas a
tendência vai na direcção certa.
JS: Como
teve a ideia de criar uma fundação para ajudar os habitantes dos países
pobres?
BG: Fiquei
muito surpreendido ao aperceber-me de que não se dá muito valor ás vidas
nos países em desenvolvimento. Uma vida pode ser salva por $100 de
medicamentos. E quase não se faz investigação em novos medicamentos para
curar doenças que só existem em países pobres. Assim que me apercebi
disso, decidi que essa era melhor maneira de devolver à sociedade todo o
dinheiro que tenho, pois era a que teria um impacto mais positivo.
JS: A sua
fundação é gerida pelo seu pai...
BG: Sim, o
meu pai e Patti Stonrcipher, que trabalhava na Microsoft dirigem a
fundação no dia-a-dia.
JS: Acha que
deve tornar uma parte da sua fortuna acessível aos pobres?
BG: Foi uma
opção minha. Não é uma questão de obrigação. A esmagadora maioria da
minha fortuna irá para essa causa. Creio que é atitude certa a tomar, e
encorajo outros a fazer o mesmo.
JS: Quais
são as suas grandes preocupações em termos de saúde global?
BG: A maior
iniquidade do mundo é o facto de estas vidas se perderem. Por pouco
dinheiro, podemos salvar a vida de crianças. Se o fizermos, desce o
crescimento demográfico, a “literacia” (10:49) sobe... Temos é de
iniciar este ciclo positivo. E são as condições de saúde que impedem que
isso aconteça. E temos imensos avanços tecnológicos, só que não os
aplicamos para beneficio destas pessoas.
JS: O que
está a fazer em Moçambique através da sua fundação?
BG:
Moçambique, tal como muitos países Africanos, tem uma grande taxa de
doenças. A epidemia de SIDA, a malária, a tuberculose, doenças
respiratórias, diarreia... Todas elas são muito prevalecentes em
Moçambique. Temos lá vários centros onde estamos a testar vários
remédios para a malária e para a tuberculose. Financiamos a investigação
e o tratamento. O novo fundo para vacinação que a nossa fundação e os
governos apoiam acrescentou novas vacinas às que as crianças
Moçambicanas recebem.
JS: Como é
que escolheu Moçambique?
BG: A
fundação está a trabalhar em todos os países onde estas doenças são
muito comuns. Moçambique foi o primeiro país para as novas vacinações
porque o Governo tem um interesse pela saúde mundial, era um sítio para
começar. Sofrera fortes intempéries que trouxeram muitas dificuldades.
E estavam muitos interessados em lidar com as doenças. Além disso,
encontrámos no interior de Moçambique médicos com muito talento, e
decidimos apoiar a sua actividade.
JS: Quando
vai a esses países, o que é que as pessoas lhe dizem?
BG: Quando
vou a esses países, as pessoas não sabem quem eu sou. Vou lá só para ver
como as coisas estão a funcionar, ou não, e para garantir que sejam
aplicadas as pessoas mais capazes e os melhores recursos para ter um
maior impacto.
JS: Mr Gates
Sente que é mais poderoso e influente do que presidentes e Governos?
BG: Não.
JS: Não?
BG: Não.
JS: Que
significa para si esta ideia de poder?
BG: Os
políticos tomam decisões par o país inteiro. O que quer dizer que temos
de os escolher com muito cuidado. As decisões que eu tomo sobre design
de software, ou sobre o que a fundação faz, não são decisões para outras
pessoas. É muito diferente. Nos negócios, é a concorrência. Quem tem o
produto melhor passa a frente. Dependemos totalmente de compreender as
necessidades do cliente, e sempre a introduzir melhorias. Portanto, não
há decisões arbitrárias, como pode haver no mundo político.
JS: Mas,
hoje em dia, a concorrência não é só entre empresas mas também entre
países. Concorda com esta ideia?
BG: Nem por
isso. Qualquer país pode aprender com outros países, mas se um pais
inventa um novo medicamento que cura uma doença, isso não é uma perda
para o outro país, é um beneficio para todo o mundo.
JS: Disse
que o conhecimento se tornou um adjectivo. Que quer dizer com isto?
BG: A
capacidade de partilhar ideias, de colaborar mais eficazmente, foi
dramaticamente incrementada pela combinação do software com a Internet.
Esperamos que os estados sejam mais eficientes, com menos papelada, que
a concepção de produtos se faça de forma mais eficaz... Em todos os
sectores, esperamos que estas ferramentas do conhecimento sejam usadas.
E, cada ano que passa a Microsoft tem feito grandes progressos nessas
ferramentas, garantindo que vão para o mercado e têm um grande efeito.
JS: Como
responde aos que o acusam de dominar o mundo das tecnologias da
informação através da sua empresa?
BG: A
Microsoft tem muitos concorrentes. É sempre um campo em que há novos
desafios. Nos telemóveis, há muitas empresas boas a trabalhar nesse
sector. Há grandes companhias, há a IBM, há empresas que fazem bases de
dados... Trouxemos uma abordagem de alto volume e baixo-preço às
tecnologias da informação, que foi bastante revolucionária e que
permitiu sucesso dos nossos parceiros. Mas temos de ganhar a nossa
posição todos os anos, tornando os nossos produtos obsoletos e fazendo
melhor.
JS: Mas como
vê os seus principais concorrentes?
BG: São
muito activos. Os concorrentes que não eram muito bons já desapareceram
há muito. Hoje, há empresas inteligentes cheias de energia. A
concorrência é muito saudável.
JS: Como vê,
por exemplo, o êxito de outras empresas como a Google?
BG: A Google
é hoje, sem dúvida, a estrela da indústria devido ao que fizeram em
termos de busca. A Microsoft vai fazer-lhe mais concorrência do que se
espera, mas é uma empresa inovadora, trouxe coisas novas. É um óptimo
exemplo de como o nosso sector muda tão depressa.
JS: Mas
respeita-os, claro...
BG: Claro.
JS: Sente
que é mais admirado ou invejado?
BG: Não sei.
As pessoas que me conhecem, com quem eu me dou, conhecem-me não apenas
numa única dimensão. As pessoas que não me conhecem provavelmente não
sentem uma coisa nem outra.
JS: Qual é a
devisa da sua vida?
BG: Não
tenho uma devisa. Acredito sem dúvida nos avanços, estou optimista
quanto ao progresso e esforço-me muito para garantir que ele beneficie o
máximo de pessoas.
JS: E como
lida com a fama?
BG: Passo o
maior tempo com engenheiros da Microsoft, ou com a família... Em viagens
a países em desenvolvimento, onde não sabem quem eu sou. Não é um grande
problema. Deu-me a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, de
trabalhar com Nelson Mandela, Bono, grandes cientistas... Gosto da
oportunidade de trabalhar com as pessoas incríveis.
JS: Mas não
gosta de ser visto como uma celebridade...
BG: Quando
se fala em celebridade, penso mais em estrelas de cinema do que num
engenheiro como eu.
JS: Então
não gosta de ser visto como uma celebridade...
BG: O meu
nome é muito conhecido, reconheço isso. Mas não é um objectivo. É mais
um resultado dos produtos em que estive envolvido.
JS: Ainda
tem sonhos impossíveis de concretizar?
BG: O
computador pessoal com que sonhei quando era novo, ainda não o temos.
Não é tão potente, ou tão simples, ou seguro como eu queria. Portanto,
há muitas décadas de trabalho pela frente para conseguirmos atingir essa
ideia.
JS: Que
recordações tem do passado, em que passavas noites á frente do
computador com o seu amigo Paul Allen?
BG: Foram
tempos óptimos. É muito bom estarmos directamente envolvidos. Não
tínhamos o impacto que temos hoje, mas havia uma certa simplicidade no
facto de ninguém acreditar em nós, embora soubéssemos que estávamos a
trabalhar em algo importante. Foi muito emocionante. Trabalhávamos dia e
noite, contratámos gente muito inteligente... Tínhamos um sonho que
viria a revolucionar os computadores. O espantoso é que se concretizou.
JS:
Continuam amigos?
BG: Claro. É
um amigo muito chegado. Aliás, no Domingo vamos os dois a um jogo de
futebol americano, o Superbowl, porque a equipa dele é uma das
finalistas.
JS: Gosta de
jogar bridge?
BG: Os jogos
de cartas? Gosto, sim.
JS: Esta é
uma pergunta que toda a gente em Portugal faz. Qual foi o segredo do seu
sucesso?
BG: Não
creio que haja uma resposta simples. É um facto que tive imensa sorte em
conhecer pessoas como Paul Allen e em estar presente no início da
indústria dos computadores, e em vê-la de uma maneira diferente de todos
os outros. Há um certo talento, trabalho duro, que também entra na
equação. Ver onde estávamos a cometer erros, renovar a nossa excelência.
Muitas vezes, as pessoas julgavam que íamos falhar, mas, até agora,
conseguimos sempre ter sucesso. É uma mistura de todas estas coisas.
JS: Quantas
horas por dia passa à frente do computador?
BG: Os meus
dias variam muito. O que eu faço agora é, quando vou a reuniões, levo o
meu computador portátil para poder tomar apontamentos. Tenho um em que
posso usar uma caneta que cria tinta. Portanto, agora que o tenho nas
reuniões, são muitas, muitas horas. Passo duas a três horas por dia,
sozinho, a ler e-mail, a enviar e-mail, e a procurar informações. Mas
também uso o computador para reuniões, para aceder aos últimos dados,
tirar apontamentos e partilhá-los com outros.
JS:
Portanto, os computadores e a fundação são a sua vida...
BG: É o meu
trabalho. Tenho a família, que é muito importante. Tenho alguns
passatempos, mas minha energia profissional vai para a Microsoft e para
a fundação.
JS: Consegue
imaginar a sua vida sem computadores?
BG: Os
computadores são uma ferramenta em tudo o que eu faço. Mas são apenas
isso, ajudam-me a fazer as coisas.
JS: Trabalha
todos os dias?
BG: Não. Às
vezes, tiro dias. Quando estou de férias, leio livros sobre tuberculose
ou SIDA. Por isso, pode dizer-se que estou sempre a tentar aprender. Mas
tenho imensos dias de férias divertidos com os meus filhos.
JS: Mas
desde 2000 que não é o director executivo da Microsoft.
BG: Exacto.
Steve Balmer é director executivo da Microsoft e eu sou o presidente.
Continua a ser um emprego a tempo inteiro para mim. Mas posso
concentrar-me na estratégia de produto, ele tem a responsabilidade geral
sobre todas as grandes decisões.
JS: Ele é
seu amigo da Universidade de Harvard...
BG: Exacto.
Conhecemo-nos quando éramos estudantes. Somos grandes amigos.
JS: Para
terminar, Mr. Gates, consegue ter uma vida normal? Passa a vida a viajar
pelo mundo, em reuniões, conferências...
BG: Há
muitas coisas na minha vida que são perfeitamente normais. Sou bom a
lavar pratos, a cozinhar. Não corto a relva, não faço certas coisas.
Quando estou com os miúdos, em família, é muito normal. Tenho muita
sorte em ter... Passo todo o tempo livre que tenho com os meus filhos.
JS: Tem três
filhos.
BG: Exacto.
JS: É a
terceira vez que vem a Portugal, a Lisboa.
BG: Sim, se
não contar quando cá vim como turista.
JS: Então
não é a terceira vez que vem a Lisboa?
BG: Não.
Quando era mais novo, vim várias vezes. Mas isso foi antes da Microsoft.
JS: Gosta de
viajar pelo mundo?
BG: Sim,
claro.
JS: E tem
tempo para contactar com as pessoas, visitar os lugares, ou não é
possível?
BG: Quando
estou de férias, claro. Tenho um bom amigo, Rodrigo Costa, que voltou
para Portugal depois de trabalhar na sede da Microsoft. Vamos ter tempo
para conversar hoje. É óptimo conhecer pessoas como ele.
JS: Mr.
Gates, obrigada por me ter dado esta entrevista.
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